quinta-feira, 6 de março de 2014

O pacto do samovar



“O respeito ao direito alheio é a paz.”

(Gabriel García Márquez)




A Rússia encabeça o projeto de integração econômico-regional euro-asiático denominado, em inglês, Eurasian Economic Union (EEU), ou EurAsian Union (EAU), que estreará no próximo ano.


Em episódio recente, perdeu a Ucrânia (falida) para a União Europeia, que já rodou o chapéu solicitando auxílio de US$ 35 bilhões ao FMI. Apesar das manobras marciais na Crimeia, Moscou não invadiu Kiev, no limiar dos Bálcãs,evitando o banho de sangue e optando pela solução política – viabilizando, assim, a implantação do EEU.


A guerra seria equivocada: devido às flutuações sociais, referendo ou plebiscito ucraniano poderá decidir no porvir sobre a permanência na zona do euro ou adesão ao EEU.


A Península da Crimeia pende à anexação russa, e o Parlamento aprovou referendo para 16 de março próximo.Em decisão salomônica, tem-se que a Ucrânia ficará sob o manto da União Europeia e a Crimeia, autônoma, aderirá ao EEU.Ressalte-se que novas consultas populares poderão reverter o quadro, dependendo das oscilações econômicas, dentro dos princípios democráticos.




Putin, apesar do espírito napoleônico, está sendo coerente ao idealizar o bloco de livre comércio euro-asiático. Não se trata de ressuscitar os princípios do marxismo porque a intenção óbvia é a integração comercial entre países afins, para impulsionar a economia, mediante cooperações mercantis e tratados de isenções aduaneiras mútuas (commodities trades), com cláusulas pacifistas imbricadas, como de praxe. 


É um dado positivo, embora o seu discurso, saudosista e abstrato, choque o conservadorismo, preocupado com a exumação do stalinismo e a expelição do ovo da serpente. 

Mas a nostalgia não surtirá efeito prático.

Primeiro: o bloco econômico é claramente anti-marxista, pelo menos em tese, porque visa impulsionar o comércio e o consumo de bens pela população de aproximadamente 170 milhões de habitantes. 

Segundo: a marcha da História pede a expansão do consumo (básico e tecnológico – o Ocidente já trabalha com hologramas e impressões em 3D) aos povos, de forma a produzir riquezas e salvar economias combalidas. 

Terceiro: a nova geração nasceu no pós-sovietismo, com livre acesso aos bens de consumo e conquistas sociais, que deverão ser ampliadas.Essa “new generation” irá comandar no futuro, com base no empirismo, minimamente apoiada em resquícios ideológicos dos grandes revolucionários do leninismo-trotskismo. 

É claro que alguma forma de socialismo “light”há de persistir porque sem caridade o mundo seria habitado por vampiros, zumbis e godzillas atracando-se uns aos outros dentro do capitalismo selvagem.
 

Essa política tem de priorizar a inclusão social, com a eliminação da pobreza (ou seja, transformando os pobres em não-pobres). 

Não poderá ser mecanismo de política egocêntrica exclusivamente benéfica aos ricos, como a direita sempre o faz, mesquinha e desumanamente, quando põe as garras no poder e canibaliza os humildes – através do poderio econômico ou bélico (em alguns casos artificializando a guerra conforme os seus interesses obtusamente maquiavélicos).


A transformação dos pobres em não-pobres pela disponibilidade e ductibilidade na aquisição dos bens de consumo (desonerações tributárias/alfandegárias), criação de novos postos de emprego com estímulos empresariais (desonerações tributárias),enfim, toda a teia política de cooperação mercantil voltada à erradicação da miséria, com severas leis anti-corrupção, e.g., para obstar os criminosos ávidos da espoliação leviatânica.


Os países-membros estarão clausulados, com direitos e obrigações, nitidamente mercantis em prol dos povos. Blocos econômicos intercontinentais cooperarão entre si, através de protocolos, como peças de dominó, com eliminação dos empecilhos ao pleno desenvolvimento social (burocracia, taxações, retaliações etc. - a não ser no âmbito litigioso intra muros, quando pormenores poderão ser dirimidos por tribunais específicos).


Exatamente por isso, a paz – administrada pelos agentes desses organismos com laços intercontinentais - será fundamental para os esforços comerciais – e os conflitos globais deverão ser diluídos diplomaticamente.


A riqueza fluída das nações será mais interessante do que o sangue derramado nas batalhas (cada vez mais serão vistas como cromos de museus), devido à inclusão dos países pobres – e em desenvolvimento - na sua auferição, potencializando-os.  


Uma nova consciência civilizatória emergirá.

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REVOLUÇÃO RUSSA - A Rússia e a EurAsian Union devem expandir o "socialismo de mercado" aos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento (América do Sul, Central; África; Ásia), através da interação comercial entre os respectivos blocos inter-continentais, de modo a distribuir a riqueza material, através das exportações/importações e política de pleno acesso popular aos bens de consumo (principalmente os insumos tecnológicos), barateando-os. 
     

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Pax Christi - Em sua obra "Jerusalém - A Biografia", Montefiore analisa "an passant" a Guerra dos Seis Dias, incitada por Nasser (Egito), com apoio da Jordânia, em 1967. Israel venceu, e o general Moshe Dayan não quis fincar a bandeira de Davi no topo do Monte do Templo, entregando a sua administração aos islâmicos. Internacionalizou a cidade de Jerusalém. E se Dayan tivesse fincado a bandeira judaica no Monte e monopolizasse a administração do Templo?, reflete o leitor no fim da obra.

  

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CUBA - Quem reatará com Cuba?         
                                                              


Precedentes Em suas reminiscências, Kissinger observou: "Numa entrevista para a televisão mexicana, o senador Edward Kennedy, em 9 de fevereiro (de 1975), frisou que o embargo no comércio tinha sido um erro e instou os EUA à normalização das relações com Cuba. (...) Em 4 de março, Kennedy propôs legislação para suspender as proibições ao comércio e às viagens a Cuba e para acabar com as medidas punitivas contra outros países que comercializassem com Cuba." ("Memórias" - 3º Vol. - pág. 804). 



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Referendo na Ucrânia - As autoridades pós-"coup d'état" meditam sobre o referendo da federalização nas eleições de 25 de maio. Que assim seja, e de forma pacífica, porque desde Rousseau o poder é do povo.