sexta-feira, 31 de julho de 2009
Adélia: falsos infinitos
A maior poetisa brasileira da atualidade, Adélia Prado, veio a Rio Preto, no findar de setembro, proferir palestras para jovens ginasianos. Estive numa delas, num domingo gris. Adélia, a Cecília de nossos dias, discorreu sobre códigos de leitura, ressaltando a Torá, comparando a palavra a um peixe vivo que se apanha com a mão. Por fim, declamou poemas, esculturas verbais de singela beleza, dando ênfase à espiritualidade, em contrapartida à vida material, dita “esplêndido caos”.
Evidente que Adélia, de forma cadente, está rejeitando em sua poética o mundo visível ao redor, tentando compreender o porvir. Há, de fato, um retorno ao teodrama: a ficção parece sem sentido face à realidade espiritual, quando devidamente captada.
Compreendo Adélia, porque ambos, além de mineiros, vivemos rebeldes num mundo reducionista, minúsculos peixes no aquário.
O reducionismo valoriza o superficial, não vê além, como assevera Philip Yancey em “Rumores de outro mundo”, no qual denuncia a substituição do monoteísmo por “deus ex machina”, ou falsos infinitos: política (inobstante imprescindível a organização social), economia globalizada, beleza física etc.
A consciência do além-mundo leva o cristão a viver como um anfíbio: na terra, mas almejando o céu.
Apesar das minhas imperfeições nesta viagem cósmica, ouvir Adélia declamar, com sua voz límpida, enquanto estudantes mascam chicletes e sussurram ao celular, é o mesmo que presenciar a junção de dois mundos opostos, mas próximos.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Justiça canadense
Na Cour Municipale, que é um prédio amarelado perto da Prefeitura, cerca de 18.000 processos são distribuídos por ano, referentes a pequenos delitos - principalmente de trânsito. É um número relativamente baixo, haja vista que a população metropolitana é da ordem de 3,6 milhões de habitantes.
Como por lá é verão, os juízes estavam de férias, apenas quatro varas funcionavam em regime de plantão.
A Cour d'Appel du Québec (equivalente ao nosso Tribunal de Justiça estadual) também estava em recesso. É um prédio em estilo art-décor, construído pelo famoso arquiteto Ernest-Cormier, com esculturas modernas pelos corredores. Na entrada, passa-se pela revista obrigatória no detector de metais, enquanto o corpo é escaneado pelo bastão com sensores biométricos da sentinela.
O simpático funcionário Donald levou-me para conhecer a sala de julgamentos, um ambiente sóbrio com monitores de computador em várias mesas. As audiências são gravadas em cds, e em caso de réu preso, utiliza-se videoconferência. Esta Corte de Apelação cuida apenas de questões constitucionais. O direito canadense é muito influenciado pelo Código Napoleônico, com suas atualizações pertinentes.
Quando ele me informou que há apenas dois mil processos por ano, fiquei estupefato! No JEC (antigo juizado de pequenas causas) de Rio Preto, por exemplo, há cerca de 15 mil ações em trâmite.
Donald ciceroneou-me pela galeria dos juízes, com fotos pelas paredes dos antigos magistrados da Corte. Dentre eles, destaca-se Sir Louis-Hippolyte Lafontaine (1807-1864), que exerceu a judicatura entre 1853-1864. Escreveu o livro "Diários de viagem à Europa (1837-1838)", exposto numa redoma de vidro. No andar superior há um óleo dele, considerado um estadista. É nome de um famoso túnel que passa sob o Rio São Lourenço.
Os processos canadenses podem ser em francês ou inglês, como o autor o desejar, e os magistrados, obviamente, têm que dar as decisões no idioma em que se iniciar cada feito. Todos, portanto, têm que ser fluentemente bilíngues.
No Palais de Justice, tentei assistir alguma audiência, mas o expediente já estava findando, às 16:30 horas.
Recentemente, o forum foi cenário do julgamento do escroque Earl Jones, que escandalizou a cidade por aplicar um golpe financeiro de quase 100 milhões de dólares canadenses nos investidores (em sua maioria, aposentados).
A foto de Jones estava em toda a mídia, com os seus cabelos de algodão e um sorriso bonachão no rosto de Papai Noel.
Foragido e rapidamente capturado, compareceu na instrução sob forte escolta. As vítimas protestavam contra ele e o seu "esquema da pirâmide" erguendo cartazes pedindo "justiça" e "100 anos de prisão".
Para os canadenses, com sólidos princípios da ética materialista, os crimes do financista fazem-no orbitar nos círculos do hades social: haverá punição exemplar.
Pela cara crispada do Jones ao ser atirado no carro pelos policiais durões, como quem mergulha num lago de enxofre, vê-se que ele cometeu o erro fatal de supor que o crime compensava (vide vídeo no link http://www.montrealgazette.com/news/VIDEO+Earl+Jones+court/1840505/story.html?tab=VID).
domingo, 26 de julho de 2009
O poeta, a cidade e os livros
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Verde, amarelo e cinza
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Quebec City
Neste domingo, estamos na capital da província do Quebec, também chamada Quebec, fundada há quatrocentos anos, onde ao contrário de Montreal, fala-se somente francês. A preposição francesa "au" refere-se à província. E "a" diz respeito à cidade.
Por uma das entradas, no Blv. Laurier, que é uma avenida com aleias de enormes árvores frondosas e châteaux floridos, passamos ao longo do Parc de Champs-de-Bataille, onde franceses e ingleses lutaram pelo domínio da terra há muitos séculos.
Na Ville, fomos a pé ao Terrasse Dufferin, repleta de turistas do mundo inteiro (japoneses, mexicanos, britânicos, brasileiros etc) fotografando o castelo de Frontenac e monumentos, ou comendo nos bistrôs. Pelas ruas, fiacres com mais turistas.
O Terrasse fica na secular fortaleza construída pelos franceses, em cujo centro eleva-se a estátua do fundador da cidade, Samuel de Champlain, em 1608, sob a qual saltimbancos fazem uma apresentação pirofágica, sob o olhar curioso dos visitantes.
Andamos pelo Terrase, parando para observar os navios atracados no Rio São Lourenço, que desemboca no Oceano Atlântico. Daqui da cidadela, no château Frontenac, os aliados liderados por Roosevelt e Churchill fizeram o plano secreto para o desembarque das tropas na Normandia, pondo fim à Segunda Guerra Mundial. Vide: http://en.wikipedia.org/wiki/Quebec_Conference,_1943 .
Enquanto andamos pela turba, uma voz de sereia ressoa no ar: uma melodia diferente, sotaque diferente, em alguma língua incompreensível próximo ao eslavo afrancesado, mas encantadora. Trata-se de Natalia, uma mirrada cantora-de-rua imigrante russa, que canta ao microfone e vende os seus cd's de fabricação caseira. A música chama-se "Paloma".
Fomos a outra praça, onde há canhões, plátanos, corvos, gaivotas e estátuas - e de onde entrevê-se prédios em estilo medieval com suas torres cinzas e verdes, e a Basse-Ville (Centro-Baixo), que descemos por uma rua estreita de lojas e bistrôs, apinhada de turistas e automóveis.
Na Basse-Ville, uma banda toca jazz. Mais à frente, o harpista David Ogalde dedilha "Fernando", do Abba, e expõe os seus cd's à venda. Os turistas passam e, como nós, entram nas lojas e bistrôs. Tomamos sorvete e conferimos numa lojinha peles de urso, alce, raposa branca, castor e bisão, com as assustadoras carrancas empalhadas. Subimos ao Terrasse de funicular.
Deixando a cidade pela autopista, em direção a Île d'Orléans, cruzamos com um ônibus elétrico: o Écolobus, não-poluente (http://www.rtcquebec.ca/francais/services/nosservices_ecolobus.html).
sábado, 18 de julho de 2009
Chambly
Chambly é um vilarejo turístico a cerca de 30 quilômetros de Montreal. Tem como principal atração o Forte de Chambly, banhado pelo Rio Richelieu. A fortaleza fora construída por Jacques de Chambly, militar francês, no século 17. Ao redor, uma enorme praça arborizada, com esquilos pulando em busca de nozes, e gente com suas bicicletas, cães com coleiras, patins, tomando sol ou fazendo piquenique (costume local) sob os plátanos.
No Forte funciona um museu, que conta a história da região, através de bonecos de cera representando o cotidiano dos soldados franceses aquartelados ou em campanha empunhando os fuzis contra os índios Iroquois. No inverno, durante as campanhas militares, muitos morreram de frio e/ou fome.Há pinturas dos líderes indígenas e franceses - inclusive um portentoso óleo do Rei Luís XIV, patrocinador das sangrentas expedições colonizadoras, culminando no Acordo de Paz selado em 1701 entre o governo colonial e 38 nações ameríndias.
Nas redomas de vidro, em ambiente climatizado e sob a vigilância de câmeras internas, objetos dos séculos 17 a 18: fragmentos de espadas, sabres, punhais, moedas, porretes, mosquetes, medalhas, escapulários, vestuários,chapéus tricórnios, tamancos de madeira holandeses, peles e raquetes de castor (serviam como remos), lampiões, candeeiros, chifre de boi para guardar pólvora, o hinário do missionário Samuel Williams aberto no Salmo 63 etc.
O Rio Richelieu era a rota mais curta entre Montreal e Albany, e a travessia de canoa levava oito dias. A rota era utilizada pelos Iroquois e ingleses. Albany, fundada por holandeses em 1614, rivalizava com Montreal no comércio de peles.
Na sala de vídeo, em inglês/francês, apresenta-se o proeminente jornalista do século 19, Joseph-Octave Dion, que dedicou a vida à reconstrução do Forte. Com a sua farta cabeleira, barba e suíças brancas, metido no sobretudo e usando chapéu preto e bengala, é representado em fotos de tamanho natural, com os seus livros e escritos expostos nas vitrines.
Após o piquenique no parque do Forte, debaixo de um frondoso plátano, e tendo o Rio Richelieu à frente, em cujo caudaloso leito revoam gaivotas e atracam ou navegam barcos, lanchas, caiaques, pequenos veleiros e jet-skis, destacando-se do outro lado o campanário prateado da igreja de St. Joseph, rumamos para o Monte Saint-Hilaire.
Para chegarmos ao Saint-Hilaire, temos que contornar a costa do Rio Richelieu, passar dentro de um Condo com châteaux luxuosos e campos de golfe, atravessar uma ponte de ferro, serpentear pelo sopé com chalés de fazendeiros e plantações de maçãs, onde o turista pode pagar e colhê-las. É o que se chama aqui "Pick-up apple", uma ideia inteligente que assegura alguma renda aos camponeses em território essencialmente turístico.
O St.-Hilaire é uma reserva natural de 25 quilômetros de extensão protegida pela Unesco e preservada pela Universidade McGill. Há sete trilhas, e devido ao horário, escolhemos percorrer a Pain-de-Sucre, que nos levará à pedra no cume (413 metros de altura).
A subida é por um terreno íngreme, dentro do bosque de coníferas (onde há plátanos em profusão, mas também pinheiros, olmos e samambaias margeando córregos), alguns insetos e corvos crocitando. A certa altura, volto ao tempo e imagino algum índio Iroquois escondendo-se pela mata, à espreita, com uma machadinha na mão, depois de remar pelo Rio Richelieu com a sua canoa. Ou soldados do século 17 marchando pela mesma trilha que fazemos, construindo cabanas, ou parando para esquentar a comida numa coivara. Quem sabe exista algum urso marrom por entre o arvoredo de plátanos.
Após 2,6 quilômetros, chegamos à pedra do Pain-de-Sucre, de onde avistamos abaixo toda a cidade de Chambly, o Condo pelo qual passamos com seus palacetes, os carros, e o Rio Richelieu com os seus barcos. À nossa frente, longíquo, imponente e azulado, o Monte Real; e quase invisível no horizonte, alguns prédios atrás da cortina de seda de nuvens azuis-claras de Montreal.
Estamos rodeados por outras montanhas. Ao fundo, os Montes Apalaches, divisa com os Estados Unidos. Um casal de esquilos surge e põe-se a banquetear com nozes retiradas das fendas das rochas, observando com naturalidade cotidiana a exuberância da paisagem que nós, turistas, fotografamos em êxtase, agradecidos a Deus. No alto, voa ameaçador um condor.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Mont Tremblant
Estamos no Mont Tremblant, depois de rodarmos cerca de uma hora por montanhas com escarpas rochosas cheias de coníferas, pistas com teleféricos para esquiar no inverno, chalés e clubes de golfe.
Antes, porém, alcançamos o vilarejo turístico de St. Jovite, com seus cafés-restaurantes, mercearias e igrejinha de torre prateada com chafariz na praça.
No sopé do Tremblant, o Parc-du-Mont-Tremlant - resorts, spas e châteaux com telhados pintados de verde, vermelho e cinza, construídos na área central e nas encostas. Na entrada, uma pequena lagoa com plantas aquáticas. A alta burguesia veraneia, fazendo ciclismo, jogando no luxuoso cassino da Fôret Blanche, ou curtindo o panorama do teleférico. Na praça, sob tendas brancas, espetáculo de blues - e alguma banda ou cantor faz a passagem de som em meio ao burburinho do dia.
Como bons ecoturistas, percorremos uma trilha que desemboca no Rio La Diable, de águas escuras e densas, ciliado por plátanos. Fotografamos. Pelos campos floridos dos chalés, veados e esquilos fogem em direção ao bosque.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Pela costa da Île
Pegamos o Blv. Gouin, que dá acesso ao Parc-Nature de l'Île-de-la-Visitation, em direção ao oeste. Avisto um castelo medieval - pelo menos assim me parece -, mas trata-se da cadeia pública de Montreal. No mais, o bairro é predominantemente residencial, com seus belos châteaux e jardins floridos; as casas são construídas dentro dos parques naturais; e há demasiados parques naturais ao longo da costa; o Hôpital du Sacré-Coeuer com imenso gramado cravejado de coníferas surge à esquerda; e muitas "cul-de-sac".
Após a Rue Beausèjour, com os seus châteaux floridos, avistamos plátanos verdes e roxos e vários parques naturais com seus bosques imensos, ciclovias e pistas para caminhada. E por todo o percurso de fato há ciclistas e gente fazendo jogging. Cai uma leve e intermitente chuva de verão, que logo desaparece.
O letreiro eletrônico do ônibus que cruza com o nosso carro indica o destino: Pierrefonds, por onde já estamos passando, e é uma área mais comercial, com inúmeras concessionárias de veículo, e alguns postos de gasolina (onde raramente há frentistas devido ao alto custo salarial; o próprio freguês tem que abastecer o automóvel).
Mais além, paramos no Parc-Nature l'Anse-à-l'Orme (baía dos Olmos), banhado pelo Rio Prairies, em cujas águas pratica-se windsurfe. Sob o vento forte e debaixo das copas balançantes dos olmos, grupos preparam-se para entrar na água. Mas o material que armam para o esporte aquático não é windsurfe, mas Kiteboarding. Com uma bombinha enchem as asas plásticas do paraquedas, que será impulsionado n'água pela ventania, enquanto o atleta controla as manobras por cordas e com os pés numa prancha (http://www.kiteboardingmag.com/videos).
Seguindo o caminho, próximo ao Lac de Deux Montagnes, mais belos châteaux com seus jardins imensos de muros baixíssimos e portões abertos. Alguns cemitérios. Há mesmo belas igrejas católicas, que surgem com suas torres prateadas.
Atingimos a Baie d'Urfé, com veleiros e barcos atracados, e um forte comércio de bares pela Rue Sainte Anne.Leio no tablóide The Chronicle que por toda a costa concentram-se os Yatch Clubs, onde pode-se tirar carta náutica após o curso de verão. Os centros comunitários têm papel ativo na política da cidade, por que cuidam não só do visual deslumbrante da flora costeira, como atuam de forma a valorizar o trabalho voluntário e a integração social entre os ilhéus, fomentando concertos e danças nos parques. Há também incentivo absoluto à prática esportiva e ferrenha proteção à natureza, com multas altíssimas no descumprimento das regras.
Em Beaconsfield a sinalização é inglesa. Avista-se palacetes, mas todas as casas no Canadá são construídas com estrutura de madeira (tipo pré-fabricadas), e ornamentadas por fora ao gosto (e bolso) do proprietário. Isso para baratear a construção, já que há árvores em abundância no país. Também é mais prático - e pragmatismo e pontualidade são a ordem local, costumes herdados dos métodicos ingleses e franceses. Na rua, não se começa uma conversa sem se pronunciar "Excuse me". Para os montrealenses soa ofensivo dizer apenas "Hi" e começar a falar.
Veleiros na enseada do Rio São Lourenço, e estamos em Pointe Claire, com seus sallons de café nas calçadas. Na City of Dorval (onde fica o aeroporto), mais veleiros n'água. Provavelmente dos próprios moradores do bairro, que têm áreas privadas para os seus barcos. Curiosamente, qualquer bairro da costa é chamado de City por que era uma cidade autônoma que fora anexada a Montreal algum tempo atrás. Na Baie Valois, o São Lourenço corre tranquilo e belo. Em Lachine, gaivotas voam no céu azulado; há um pequeno farol sobre o píer com barcos e iates no leito do rio, uma placa indica o Club de Canoe; e próximo ao Canal de Lachine com suas árvores ciliares, a estátua de Jesus com o coração flamejante.
No Canal de l'Aqueduc, ainda em Lachine, com o edifício do Natatorium, onde há piscinas de natação, e gente do povo fazendo ginástica na praça, as águas do São Lourenço parecem mais agitadas, com forte correnteza. No Parc Desmard, por entre as copas d'árvores de folhagens brancas, surge o arco-íris. Numa lanchonete, comemos frango frito com salada. Os montrealenses, preocupados com o trabalho e a vida prática, comem em geral sanduíches e produtos industrializados. Daí o alto índice de câncer na população. O prato local é o poutine, queijo com batatas.
Saindo da costa, e adentrando perto do sopé do Monte Real, chegamos ao bairro judeu de Outremond, com vários prédios de tijolos de terracota vermelhos. Aqui e acolá, judeus ortodoxos passam pelas ruas, com suas barbas e dois filetes laterais de tranças encaracoladas sob o chapéu de coco preto, dentro de suas roupas pretas.Como estamos passando perto de uma padaria, onde compramos bagels e fomos atendidos por funcionários imigrantes indianos, percebemos acentuado cheiro amanteigado de café no ar.
No Petite Itale, passa-se sob um arco com a inscrição do nome do bairro, e as calçadas estão repletas de restaurantes-cafés e trattorias. Uma igreja católica foi transformada em prédio residencial. O Arcade é o gueto dos paquistaneses, gregos e indianos. Há vários restaurantes libaneses e igrejas ortodoxas gregas. O metrô fica próximo a uma delas. Nas ruas, por entre ciclistas e pessoas celebrando a vida nos bistrôs e olhando as vitrines com diversos produtos coloridos à venda, as fisionomias dos médio-orientais e asiáticos: homens com turbantes à moda paquistanesa com os seus filhos e mulheres, e muçulmanos com solidéus brancos, andam pelas calçadas sob o crepúsculo das oito e meia da noite.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Rideau Hall
Canal Rideau
O Parlamento
A guia leva-nos para o Parlamento Central. Faço amizade com um casal de professores belgas, Dirk e MaryAnn, sendo que ela reporta-me em inglês, mas com fleuma, o que a guia diz velozmente. A minha irmã e o marido ficam nos jardins descansando. Logo na entrada, uma máquina biométrica para desinfectar as mãos. Passando por um longo corredor, repleto de imponentes óleos dos primeiros ministros nas paredes, desemboca-se num salão com a abóboda em tom sépia com pinturas de lírios e rosas, simbolizando a dualidade nacional, sendo o lírio o símbolo francófono, e a rosa, o anglófono. Os capitéis são finamente esculpidos. Toda a arquitetura é neogótica.
Na Sala de Imprensa, onde acontecem as coletivas, dois enormes lustres de bronze, mas na cor dourada, pendem do pé direito alto. Murais retratam cenas folclóricas.
Quando adentra-se na biblioteca, impossível não conter a admiração, tamanho o luxo decorativo, com uma grande estátua romana feminina branca no centro, e meio milhão de livros ao redor, em estantes altíssimas. Peço a alguém para tirar uma foto minha naquele ambiente esplendoroso. Depois, já em Montreal, ao passar para o micro, confiro com amargor que saiu desfocada. A guia explica, com a retradução da MaryAnn, que o livro mais caro é sobre pássaros pictóricos da América do Sul, inclusive do Brasil, raridade avaliada em 14 milhões de dólares canadenses. Está trancado num cofre climatizado no subterrâneo.
Deixo a retradução da MaryAnn, por que no grupo conheço uma senhora portuguesa, que faz o tour com a famîlia, e tem a bondade de explicar-me mais detalhes do funcionamento da casa legislativa, em português castiço. Diz que os deputados são eleitos por voto distrital, e os senadores indicados pela Rainha Elizabeth II, da Inglaterra – que é quem nomeia o governador geral do país. Atualmente, a gorvernadora geral é a jornalista Michaelle Jean, nascida no Haiti, que representa a monarquia inglesa. Como o sistema político é uma monarquia parlamentarista, quem detém de fato e de direito o poder é o primeiro-ministro.
A portuguesa informa que para ocupar qualquer cadeira parlamentar é necessário ter o domínio de três línguas: inglês, francês e o nunuvut, dialeto dos nativos.
Subo a Torre da Paz, com vista aérea de parte da cidade, incluindo o Rio Outaouais, suas pontes e gaivotas. A Torre levou oito anos para ser construída, tem 92,2 metros e 53 sinos.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Na Colina do Parlamento
As ruas de Ottawa são tranquilas e espaçosas. É domingo e o trânsito flui placidamente, serpenteando entre os prédios de tons castanhos e acinzentados. A capital, incluindo a região metropolitana, ao contrário do que informa a antiga placa da entrada, tem atualmente cerca de 1.200.000 habitantes.
Chegando na Colina do Parlamento, ao som da banda anunciando a troca da Guarda Real no gramado do jardim, já é possível divisar os soldados perfilados dentro do cordão de isolamento dos turistas, que fotografam e filmam.
Os soldados usam dólmãs escarlates com galardões dourados, calças pretas, chapéus de pele de urso preto de palo alto, portam fuzis com baionetas. Um deles ergue ao vento um estandarte. As ordens das acrobacias marciais são gritadas em inglês e francês. No fim do espetáculo, saem pelos portões de bronze em fila dupla, precedidos de militares hercúleos trajando kilts (saias escocesas) e tocando bagpipes.
Terminado o espetáculo, observo na praça do Centro de Informações a estátua de bronze do maratonista Terry Fox com sua perna mecânica (http://recantodasletras.uol.com.br/biografias/181383). Uma placa indicativa termina com uma frase do jovem atleta: "Dreams can come true".
Perto dos portões por onde saiu a Guarda Real há também outra estátua de bronze erigida sobre pedra. Trata-se do heroi Henry Albert Harper, que morreu afogado em 1901 tentando salvar uma mulher no Rio Outaouais (que corta a cidade, e fica atrás da Colina). A escultura negra impressiona pela pose de guerreiro: Harper, com uma túnica esvoaçante, tem a espada fincada ao chão, o peito aberto ao vento, e o nariz empinado numa atitude desafiadora.
A guia leva um grupo de turistas, no qual me incluo, para o tour externo. Explica o significado de inúmeras estátuas de dignitários da pátria, começando pela Rainha Vitória, que escolheu a cidade - até então desimportante - como capital em 1857. Destaca-se também a estátua da Rainha Elizabeth II, da Inglaterra, montando um cavalo. Os dois lados vermelhos da bandeira canadense significam as costas territoriais (cost-to-cost). Nos jardins, plátanos verdes, e gaivotas brancas no céu azul e macio que voam sobre as águas azuladas do Rio Outaouais, por onde passam algumas barcas. Ao fundo, a Ponte Alexandra, de ferro; predominando ao leste, o Museu de Belas-Artes com a sua vistosa estrutura vítrea.
Em um canto dos jardins, num gradeado que liga à floresta da Colina, uma mulher alimenta gatos, sob o olhar curioso dos turistas. Percebo uma espécie de raposa cinzenta comendo ração, e a informação é que trata-se de "racoon", uma espécie de rato-do-rio.
Indianas passam com seus véus esvoaçantes. Muslims atravessam as calçadas de pedra trajadas à maneira islâmica. Japoneses tiram fotos. Alemães loiríssimos sorriem entre si. E enquanto observo as águas azuis do Rio Outaouais com suas gaivotas brancas ao longe, sob o parapeito do gradil, onde espreitam as folhas verdejantes dos plátanos da floresta, ouço o doce som do Brasil: algum anônimo com a camisa amarela e verde da Seleção Brasileira de Futebol.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Ottawa
sábado, 11 de julho de 2009
Les croyants
"Adorable mystère,
Le fils du Roi des rois
Descendit sur la terre
Mourut sur une croix
Honneur, honneur et glorie
Au sauveur, au Seigneur!
Honneur, joie et victorie,
Honneur, glorie au Sauveur."
Entrecortando os cânticos, as auxiliares leem no microfone que fica à frente da tribuna trechos da Bíblia: Salmo 111 e Lucas 15. Uma senhora recolhe o óbolo. Dou uma moeda de 25 centavos, que retiro da mochila. O pastor Wilfrid exorta. Dufort, meu intérprete, traduz alguma coisa. Wilfrid prega sobre a parábola do filho pródigo, Lucas 15:22-32. Ele desce do púlpito e anda pelo corredor, microfone à mão, absolutamente inspirado pela "l´ouevre de l´Évangile et du plan du salut".
Jardim Botânico
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Garifuna e folk irlandês
Gostei muito de uma canção folk irlandesa, de um cd que estou ouvindo amiúde aqui no apartamento, enquanto leio os jornais pela manhã. Só consegui extrair um trecho da música via internet: http://www.we7.com/track/The-Wexford-Massacre?trackId=75685&m=0 .
That's all for while, folks!
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Piquenique no Monte Real
Do mirante, onde turistas fotografam e filmam a paisagem e montrealenses praticam exercícios físicos, avistamos o centro financeiro da cidade com o azulado Rio São Lourenço ao fundo.
No final, paramos para ver uma policial feminina montando um corcel negro da Cavalarie, treinando no mini-haras do posto da Polícia Montada (Guarda Municipal, cujo uniforme é azul e branco, cores da província do Québec). O cavalo é dócil, deixa-se tocar no pescoço; e depois galopa metódica e bravamente, levando a policial amazona no dorso, compondo uma cena campestre de pungente beleza.
Esquilos no Parque da Ilha
No Parque da Ilha da Visitação (http://test.montreal.com/tourismmontreal-parks/ile-de-la-visitation-park), passeamos de bicicleta, por entre aléias de plátanos e lavandas azuis que começam a florescer. O local é muito frequentado pelos idosos, que praticam caminhada ou dirigem cadeiras motorizadas adaptadas, conhecidas por Winner. Prédios com sobradinhos desses aposentados dão acesso aos jardins do parque. Há toda uma política de respeito e integração dos idosos à vida social. Na Riviera des Prairies, um rio lindeiro que corta o parque, separando-o da cidade vizinha de Laval, tiramos fotos dos patos e de alguns garotos que pescam. A minha irmã solicita a uma simpática senhora de cabelos brancos e óculos escuros que bata uma foto nossa. Ela, extremamente feliz, tira as fotos, mas enquanto ajeitava a câmera pareca meio trôpega, temi até mesmo que caísse do alto da escadaria de pedras aonde posicionava-se para captar os melhores ângulos, e exala um odor adocicado e nauseabundo de maconha - que o povo do parque parece fumar à luz do sol, jovens e velhos, sem qualquer tipo de reproche. Flocos de pólens flutuam pelo ar, provindos de árvores cujos nomes não conseguimos identificar, mas lembravam paineiras. No retorno, encontramos pela pista alguns esquilos em busca de nozes. Um deles aproxima-se e fareja os meus dedos, querendo comida. Após sairmos do parque, pedalamos por algumas ruas, cujas casas com janelas e portas floridas não têm grade nem portão. Atravessamos o parque Hirondelle, rumamos para outro jardim com piscina pública onde as crianças nadam entusiasmadas na ensolarada tarde de verão.
Rue Champdoré, Montréal
O alvorecer acima da linha do horizonte em Toronto foi um dos espetáculos mais lindos que já vi. E depois da conexão, planando sobre Montreal, quando o avião faz uma curva entre as nuvens, que lembram espumas do mar, vislumbra-se o braço do Rio São Lourenço, que banha o sul desta ilha da província atlântica.
1. No aeroporto de Cumbica, em S. Paulo, os agentes da fiscalizacao usam mascaras cirurgicas para evitar a gripe suina (virus H1N1). Alguns turistas, principalmente asiaticos, tambem. No aeroporto de Toronto nao vi ninguem usando-as. No foyer, carrinhos de golfe sao utilizados para transportar passageiros idosos e ou gravidas e seus bebes. Os jornais e revistas mancheteiam o funeral do Rei do Pop Michael Jackson. The Globe And Mail traz extensa reportagem sobre o tributo ao artista no Staples Center, em Los Angeles, estampando fotos dos tres filhos nao-biologicos do astro. Destaca que o golden coffin (caixao dourado) onde o cantor fora enterrado, na verdade, era de bronze, com fino polimento de ouro platinado. O cerebro do Rei foi retirado para conclusao da autopsia, por ordem do coroner (juiz criminal). Nos outdoors proximos as escadas rolantes, propagandas do NeuroArm (http://www.neuroarm.org/project.php).
2. Ontem, ja aqui em Montreal, fomos ao Centro Antigo, conhecer o porto hidroviario, fundado pelos pioneiros escoceses. Nas alamedas repletas de platanos verdejantes, cujas folhagens avermelham-se somente no outono (em setembro e outubro), com o veranico (a folha escarlate é o simbolo da patria), antes de cair completamente em seguida com a chegada do inverno, ciclistas andam de ternos em suas Bixi (le-se biquisi), bicicletas-tàxis; automoveis conversiveis param com a aproximacao dos pedestres; e carruagens puxadas por cavalos de patas com densas pelagens trotam pelas ruelas de pedra levando os turistas admirados com o sol as oito da noite. Afro-descendentes misturam-se com muslims nos pontos de onibus. Na Praca Jacques Cartier, com o obelisco imponente do Lord Viscount Nelson Duke of Bronte, boemios e artistas dào colorido especial ao Vieux-Montreal. O caricaturista montrealense Francis Turp, 58 anos, tem o seu atelier no calcadao. Pinta desde os 19 e instalou-se na praca em 1975. Na Rue Notre-Dame Est localiza-se a prefeitura, chamada de Hotel de Ville, em reforma. Nos jardins, em relevo, a escultura florida da bicicleta do projeto ecologico Bixi. Na mesma rua, avista-se o Palais de Justice e a Cour d Appel du Quebec, onde tiramos fotos. Proximo a estatua de marmore negro de Vauquelin, conversei com a muculmana Aicha, 20 anos, que trazia o tipico veu islamico encobrindo a cabeca. A indumentaria chama-se hidjab. Enquanto minha irma batia fotos, turistas ioguslavos passeavam por perto, e um pardalzinho que voava pelos platanos verdes defecou na camisa do meu cunhado, o que foi motivo de chacota. Rodando pelas vielas de lojas e bares, repletos devido a regurgitacao em torno do Festival de Jazz que acontecia nos arredores, observei uma boina de cacador com rabo de castor. Era uma lojinha de souvenirs, e o proprietario, por sinal brasileiro, paulistano, mora ha 27 anos aqui. O adereco e conhecido por chapeu David Croquette, em referencia ao amigo historico dos indios nativos, uma especie de Daniel Boon de seculos atras. Mais adiante, seguindo de carro pelo Rene Levesque Boulevard, passamos rapidamente pelo Monte Real, de cujo mirante ve-se parte da cidade, ja iluminada pela noite.
domingo, 5 de julho de 2009
Revelation 3:7
Desde ontem tento ver Ponto de Mutação, com Liv Ullmann. O filme, baseado no livro do físico austríaco Fritjof Capra, é questionador, mesclando física quântica com ecologia. Philip Glass, gênio, assina a trilha sonora. Liv, no papel de uma cientista e poeta diletante, encontra-se com amigos num castelo medieval e debate os problemas da existência humana na terra. Fala no desmatamento da Amazônia utilizando clichês. Um pouco mais interessante é a biografia que a mítica atriz escreveu ("Mutações"). Mas sempre há o que aprender.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
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quarta-feira, 1 de julho de 2009
Flip
Talese na Flip (trecho extraído do site Prosa On Line na Flip - O Globo On Line):
"Assim que chegou a Paraty, na terça-feira à tarde, o escritor Gay Talese, acompanhado da mulher, a editora americana Nan Talese, mudou de pousada. Filho de um alfaiate, o autor mais elegante da 7 edição da Festa Literária de Paraty (Flip), que começou ontem, precisava de um armário maior para acomodar os seis ternos que trouxe para a temporada no Brasil. Ontem, o autor providenciou a compra de mais 25 cabides. Talese, considerado um dos primeiros e mais brilhantes praticantes do “new journalism”, é uma das estrelas da festa (ele fala ao público na Tenda dos Autores, às 17h de sábado, com mediação do brasileiro Mario Sergio Conti). No domingo, os dois seguem para São Paulo, e, na segunda-feira, chegam ao Rio de Janeiro para aproveitar cinco dias de férias. O casal ficará hospedado no Copacabana Palace, onde Talese certamente terá um bom guarda-roupa para organizar seus ternos, camisas, sapatos e chapéus panamá. No dia 10 do mês passado, Nan (75 anos) e Talese (77) completaram 50 anos de um casamento que resistiu até à alentada pesquisa de campo realizada pelo autor para escrever seu livro “A mulher do próximo” (1980), sobre liberdade sexual, orgias e swingers nos EUA dos anos 1970. A longa união é o tema do próximo livro do escritor, no qual ele pretende passar a limpo todos estes anos ao lado da mulher, uma das editoras mais reconhecidas dos Estados Unidos. — A coisa mais importante do casamento não é o sexo, mas o café da manhã — confidencia ele, com ar de quem sabe do que está falando. Ela no quarto, onde mostrou o extenso guarda-roupa do marido, e ele na sala da pousada onde afinal se instalaram, os dois falaram ao GLOBO sobre literatura, vida em comum, sexo, predileções literárias e musicais. Talese, por exemplo, é fã de Simone. (Foto de André Coelho). Abaixo, as duas entrevistas."
Leia mais em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/default.asp .
À primeira vista, pode parecer que o grã mestre Talese seja janota, excessivamente zeloso com o próprio vestuário. Eu, por exemplo, sou chiffon. Mas quem ler Vida de Escritor, seu último livro, compreenderá que é apenas uma homenagem póstuma ao seu pai alfaiate e à sua mãe, dona de boutique, na época da pobreza rude da Grande Depressão nos Estados Unidos.