No filme Extermínio , milhões de seres humanos são infectados com o vírus mutante da raiva , proveniente dos macacos , e transformam-se em espécies de zumbis iracundos que atacam outros humanos sadios . Vi-o numa rara noite de insônia e de fato causa impacto . Ao final , respirei aliviado : era apenas ficção ...
Eis que agora o mundo se depara com um enredo parecido com o do filme , algo surreal : a gripe suína . Swine flu , em inglês ; grippe porcine , em francês . Que pode virar pandemia , como a Sars (gripe aviária) , anos atrás .
O foco central da nova epidemia é no México , como todos sabem . Sacudido por um terremoto ontem sem maiores consequências . Ou seja : desgraça pouca é bobagem .
De novo , as trombetas do Apocalipse soam , e a terra e seus habitantes são afligidos , uti et orbe .
No Egito , o Parlamento mandou matar 250.000 porcos como profilaxia .
Pelo menos , no Brasil , já começou a estocagem das vacinas : http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_18/2009/04/28/noticia_interna,id_sessao=18&id_noticia=103243/noticia_interna.shtml .
terça-feira, 28 de abril de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
Sonho russo
Flocos de neve caem como estrelas brancas e o céu está cinza . Entro na choupana e ela me serve um chá do samovar , olhando-me tão somente como quem teme um forasteiro . Não falamos o mesmo idioma . Estou perdido naquela terra , e ela o sabe . Toco-lhe nas pontas dos dedos ao pegar a chávena . Em seguida , fita-me com os olhos azuis cintilantes . E diz em seu linguajar algo que me soou - é chá de cogumelo com romã , beba devagar . Queimo a língua , e ela sorri encabulada , afastando uma mecha do cabelo loiro da face rosada . As suas mãos são toscas , e não finas . As unhas , sujas . Das madeiras que tem que rachar para utilizar no fogão de pedra . Há uma chaminé no teto da cabana , por onde a fumaça exala . Sento-me à mesa . Ela , prestimosa , retira minhas botas sujas da lama da neve , diz qualquer coisa em uma língua que não compreendo , e unta com ungueto de flores silvestres e cascas de sândalo meus pés que sangram . Estou fedendo . A barba por fazer , sujo como um caubói do velho oeste , desses de filmes B . Não há como lhe dizer de que forma parei por ali naquela floresta . Nem ela parece querer saber , está feliz com a minha visita , somos dois seres humanos , e isto por decerto lhe basta naquele momento , tão acostumada estava com os esquilos do inverno e as borboletas do verão . Sob o xale de lã grossa , percebo o contorno dos seus seios , mas uma cicatriz no pescoço desfaz a harmonia escultural dessa camponesa . Ela se levanta e pega um pote de barro e despeja o líquido sobre a minha cabeça , dizendo preces ou cânticos - e um olor de orvalho se desprende no ar . Poderia ser que ela se jubilava , e falava para si mesma no íntimo - há tanto tempo lhe esperava , meu amor . E dá-me uma tigela com alguma comida ainda fumegante . Com certeza queria que eu a ajudasse a arar o campo quando o inverno passasse . Que lhe fizesse filhos para parir como as animálias das montanhas . Que colhesse uvas e azeitonas e as transformassem em vinhos e azeites nos moinhos . Que a amasse até definhar , e visse todos os ocasos da varanda , durante todas as estações dos longos anos que viveríamos juntos . Poderia ser , também , que só quisesse se acasalar por uma noite por prazer ou para aflorar a madre , motivo pelo qual estava a minar a minha desconfiança e rudeza com tanta fina humanidade . Coiotes uivam ao longe . Ela , assustada , puxa de sob o xale um punhal e espeta-o à minha garganta . Paro de mastigar e fico em alerta , olhos arregalados . Lágrimas veem-lhe aos olhos . Ela desce o punhal lentamente , passado o perigo . Atira-o ao chão , arrependida do gesto defensivo imaginário . Beija a minha boca pedindo perdão . E num som gutural , sussurra palavras desconexas e solitárias . Os cones das árvores da floresta balançam pesadamente sob o impacto da neve e do vento .
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Homem-peixe
E pensar que estou há quase 2 semanas no estaleiro - sem treinar ...
http://www.youtube.com/watch?v=cteSqTI8nqo .
http://www.youtube.com/watch?v=cteSqTI8nqo .
terça-feira, 21 de abril de 2009
Ressurreição no AT
Em Teologia do Antigo Testamento , Walther Eichrodt assinala que algumas ideias do judaísmo foram assimiladas de outros povos primitivos e readaptadas à cultura javista , como a festa das colheitas , ou dos Tabernáculos .
Hoje , a cultura cristã - herdeira da javista - foi deturpada pelo capitalismo : vende-se o festejo da Páscoa como ovos de chocolate de um coelho mágico ; e o nascimento do Nosso Senhor transformou-se na festa do comércio de um folgazão Sr. gordo vestido de vermelho .
Os judeus não comem carne de porco porque esse era o animal sacrifical dos antigos cananeus (inimigos de quem tomaram as terras sob o comando de Josué) , assim como , ao inverso , a vaca é sagrada no hinduísmo .
O culto a Javé era , entretanto , especialíssimo e repleto de simbologia . O ornamento do tabernáculo mosaico tinha profundo significado místico . A pele da cabra utilizada como parte do forro significava o pecado humano ; a lã do cordeiro , a purificação .
Em 2 Reis , 13:20:21 , tem-se o impactante episódio da ressurreição de um cadáver ao ser jogado na sepultura do profeta Eliseu . Eis o texto sagrado :
"Morreu Eliseu , e o sepultaram . Ora , bandos dos moabitas costumavam invadir a terra , à entrada do ano .
Sucedeu que , enquanto alguns enterravam um homem , eis que viram um bando ; então , lançaram o homem na sepultura de Eliseu ; e , logo que o cadáver tocou os ossos de Eliseu , reviveu o homem e se levantou sobre os pés ."
domingo, 19 de abril de 2009
sábado, 18 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Scliar vs. Scliar
Da blague do Harold Bloom de que provavelmente uma mulher culta da corte do rei Salomão teria escrito o Antigo Testamento , o escritor Moacyr Scliar (mais de 80 livros publicados) teve inspiração para lançar o seu romance "A mulher que escreveu a Bíblia" . O que , segundo o autor brasileiro , em palestra no Sesc ontem à noite , seria uma inverossimilhança : a sociedade daquela época era patriarcal e as mulheres analfabetas .
Judeu de descendência russa , Scliar é ariano no físico e humanista nas ideias . "Sou um leitor literário da Bíblia" , disse , reconhecendo a excelência das parábolas cristãs .
O escritor explicou o processo de criação da obra , jogando a âncora no inconsciente ("um porão escuro") .
Por mais admirável que a literatura possa ser , a realidade com seus tentáculos surreais suplanta a ficção . Daí porque nesta era globalizada raros autores e livros alcançam o pináculo da fama , rivalizando com as manchetes espantosas da internet .
Scliar é um respeitável autor profícuo que bebe da fonte do realismo fantástico , a exemplo do grão-mestre García Marquez . Vide O centauro no jardim .
Ao começar a sua palestra , rejeitou sentar-se numa confortável poltrona no meio do palco do teatro , preferindo acomodar-se à beira da plateia . Pode ser um sinal de humildade . Ou de cansaço mesmo das artificialidades da vida . Scliar é médico , lida com a vida e a morte . Não dá tempo de ter orgulho ou algo que o valha . As conveniências sociais , os embustes , as armadilhas e ilusões que tanto nos cegam na juventude perdem-se todas com o rodar dos anos , como as penas das águias .
quarta-feira, 8 de abril de 2009
terça-feira, 7 de abril de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Dinorath In memoriam
A Exposição Fotográfica itinerante sobre a escritora Dinorath do Vale revela um pouco da vida dessa grande mestre da cultura local . Nas fotos , Dina prepara a comida na cozinha da sua casa , faz bordados , está em palanques e no carnaval em diferentes épocas : magra , jovem e elegante nas décadas de 50 e 60 do século passado ; idosa e obesa no fim da vida . Mas gostei mesmo da bela crônica-reportagem sobre a inesperada visita dos índios xavantes a Rio Preto . Naquele texto , a supremacia da grande diva literária . Algumas décadas serão necessárias para uma substituta à altura , no melting pot rio-pretense , que tenha uma mente literária tão prodigiosa . Ela passou por este planeta , esteve aqui neste pedaço de chão que piso , comeu do pão e da carne , bebeu da água , vinho e óleo , amou , sofreu , odiou , foi amada , odiada , aplaudida , teve por ofício escrever até o último suspiro - só não passou indiferente pela vida .
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