Fernando Pessoa é, indubitavelmente, um grande poeta - embora tenha vivido uma vida extrínseca fracassada, em empregos insípidos, amando imaginariamente secretárias lisboetas, e bebendo nas tavernas para esquecer o cotidiano medíocre que levava.
Mas em seu peito havia poesia! E, portanto, riqueza intrínseca. Em 12 de junho de 1914 (há quase um século) escreveu:
"Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço."
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